quarta-feira, 20 de maio de 2009

Da onde vem...

Através de uma vivência circense realizada nos meses de dezembro e janeiro no município de Unaí (2008-2009) junto à trupe Circo Balão Mágico de Lobato PR; percebemos o quanto a vida destes artistas está imbuída não apenas dos aplausos honrosos de fim de espetáculo, mas de suor , luta e resistência.
Assistindo tais figuras brilhando no picadeiro não imaginamos que por debaixo daquela lona, existem além de palhaços e malabaristas, pessoas com sonhos e saudades. São elas que erguem o mastro, que arrumam as arquibancadas, que cortam seus dedos e pintam suas faces.
Assim nasce o germe do grupo que propõe à montagem dessa intervenção cênica é composto também por gente que fez e faz teatro de rua de uma forma marginalizada no município de Uberlândia.
Nas vivências noturnas em bares e praças os atores buscam uma interação direta com o publico por meio do jogo teatral que visa não o reconhecimento, mas a experimentação que se liga a uma necessidade expressiva e ao mesmo tempo ironicamente financeira, que rende resultados imensos para o trabalho do grupo, que além de apresentações solos contou com a apresentação de Patifaria no período das eleições municipais do ano passado em alguns pontos da cidade( bares da Rondon Pacheco e da João Naves de Ávila) e na montagem ainda não concluída de um teatro de bonecos feito especificadamente para a rua baseado no Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa.
Nossa proposta aqui se delimita no substrato artístico que inegavelmente nos é colocado quando se pensa na junção entre o teatro de rua e o circo, num espetáculo amplamente musical que busca no desenvolvimento de técnicas oferecidas no interior do curso de teatro, música e artes visuais, uma ressonância no teatro enquanto arte nua e crua, capaz de extrapolar os limites lineares de uma mera encenação baseada na tríade ator público e platéia, oferecendo por assim dizer uma arte meta-teatral, interpelando ao espectador uma postura participativa da vida desse ser humano que denominamos artista.
Dentro desta perspectiva e com o domínio de algumas linguagens circenses realizadas dentro e fora da academia, o presente projeto tem por objetivo retratar a vida destes artistas por detrás desta fresta da qual muitas vezes nos perdemos: a da vaidade. Onde a vida antes e depois dos aplausos ainda corre nos palhaços que poeticamente ainda choram.
Nossas intenções vão além da mera expectativa da efetiva composição do trabalho, compor o espetáculo é apenas o início de um grande trabalho que começa sem glamour, mas com muita dedicação. Delimitar por meio desta criação uma perspectiva futura de pesquisa nesse “universo paralelo” de um teatro inserido violentamente no mundo da vida no espaço da cidade e na conseqüente inversão dos valores culturais que em nosso ponto de vista parecem cada vez mais embasados no entretenimento do que no fato da expressão, do grupo, da reunião, do ritual, da festa que nos parece a essência desta arte.
É nesse sentido que a contribuição das artes visuais por meio do registro da situação, da musica enquanto parte fundamental no sentido litúrgico e do corpo do ator se unificam numa intenção cênica que não visa mais o mero divertimento, mas a partilha, a relação direta entre espetáculo e vida, conotando um novo paradigma entre aquele que vê e o que é visto numa simbiose que nos faz repensar nossa concepção de atores e mesmo de público.

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